
Setembro Amarelo é o mês da prevenção ao suicídio e da conversa sobre saúde mental. E a pergunta que mais chega até mim nessa época não é sobre a própria dor — é sobre a dor de alguém próximo: “minha irmã não está bem e eu não sei o que fazer”, “meu marido anda estranho e eu tenho medo de falar a coisa errada”, “meu filho se fechou e eu não consigo chegar nele”.
Se você está lendo isso por causa de alguém, já tem o mais importante: percebeu. Este texto é para ajudar você a transformar essa percepção em presença — sem precisar ter as palavras perfeitas.
Antes de tudo: se existe risco imediato, não espere terminar de ler. Ligue 188 (CVV, gratuito, 24 horas), 192 (SAMU) ou leve a pessoa à emergência mais próxima. E não a deixe sozinha.
Sinais de que alguém não está bem
Sofrimento nem sempre parece tristeza. Muitas vezes ele aparece como:
- Afastamento. Some das conversas, recusa convites, “não está a fim de nada”.
- Mudanças no sono e no apetite. Dorme demais ou quase nada; come demais ou esquece de comer.
- Irritação fora do comum. Explode por pouco, principalmente em homens e adolescentes, em quem a dor costuma sair como raiva.
- Cansaço de tudo. Frases como “estou exausto”, “não vejo sentido”, “tanto faz”.
- Desinteresse pelo que gostava. O hobby parado, o esporte abandonado, a música que não toca mais.
- Descuido consigo. Aparência, higiene, compromissos que antes eram levados a sério.
- Falas que merecem atenção. “Queria sumir”, “vocês estariam melhor sem mim”, “não aguento mais”, “logo isso acaba”. Mesmo em tom de brincadeira.
- Uma calma repentina depois de um período muito difícil. Pode ser melhora — mas às vezes não é. Vale conversar.
Você não precisa ter certeza de nada para agir. Na dúvida, aproxime-se.
O que dizer
Não existe fórmula, mas existem princípios: ser específico, ser honesto e ouvir mais do que falar. Algumas frases que abrem portas:
- “Percebi que você anda mais quieto(a) nos últimos tempos. Quero saber como você está de verdade.”
- “Não sei se vou saber o que dizer, mas eu quero ouvir.”
- “Isso parece muito pesado. Faz sentido você estar cansado(a).”
- “Você não precisa resolver nada agora. Eu estou aqui.”
- “Tem alguma coisa que eu possa fazer hoje que ajude, mesmo que pequena?”
E, se você notou falas de desistência, uma pergunta direta e serena:
- “Você tem pensado em morrer ou em se machucar?”
Muita gente tem medo de que perguntar “coloque a ideia na cabeça” da pessoa. Não coloca. Pesquisas e a prática clínica mostram o contrário: quem está sofrendo costuma sentir alívio ao ser perguntado com cuidado — porque finalmente pode falar sobre aquilo sem ser julgado. Perguntar é um ato de proteção.
Se a resposta for “sim”, não entre em pânico e não saia do lado da pessoa. Diga que você a leva a buscar ajuda agora — e leve. O CVV (188) atende também quem está ajudando, e pode orientar você.
O que evitar
Quase todas as frases abaixo vêm de boa intenção. E quase todas fazem a pessoa se fechar mais:
- “É só uma fase.” Minimiza. Para quem está dentro, não parece fase.
- “Tem gente em situação bem pior.” Agora, além da dor, a pessoa sente culpa por sentir.
- “Você tem tudo para ser feliz.” Ela sabe. E se sente ainda mais defeituosa por não conseguir.
- “Pensa positivo.” / “Reage.” Se fosse questão de vontade, ela já teria feito.
- “Isso é falta de Deus / falta de ocupação / frescura.” Julgamento veste de conselho.
- Dar sermão ou listar soluções antes de ouvir. A pessoa precisa ser escutada antes de ser corrigida.
- Prometer segredo absoluto se houver risco de vida. Você pode dizer: “eu não vou espalhar isso, mas não posso prometer ficar em silêncio se a sua vida estiver em risco”.
- Ficar bravo com a pessoa por ela “não melhorar”. A recuperação não é linear, e cobrança afasta.

Como ajudar na prática
Presença vale mais do que discurso. Algumas formas concretas:
- Ajude a marcar a consulta. Quem está em sofrimento muitas vezes não tem energia para pesquisar, ligar, escolher. Ofereça: “posso procurar um profissional com você?” Se puder, acompanhe até a porta.
- Mantenha contato depois da primeira conversa. Uma mensagem em alguns dias — “pensei em você hoje, como está?” — mostra que não foi um gesto isolado.
- Convide para coisas pequenas. Um café, uma caminhada, uma série. Sem cobrar ânimo, sem exigir conversa profunda.
- Ajude no concreto. Uma comida, uma carona, cuidar das crianças por uma tarde. Quando tudo pesa, o prático alivia.
- Respeite o tempo, mas não desapareça. Se a pessoa recusar, não insista naquele momento — mas volte. O cuidado é uma sequência de tentativas, não uma única conversa.
- Envolva outras pessoas de confiança quando a situação é séria. Você não precisa carregar isso sozinho.
Cuide de quem cuida: você
Apoiar alguém em sofrimento é cansativo e, muitas vezes, assustador. É comum sentir impotência, raiva, culpa e medo de falhar. Nada disso faz de você uma pessoa ruim — faz de você alguém que se importa.
Você não é o terapeuta da pessoa, e não é responsável por “curar” ninguém. O seu papel é ser ponte: perceber, acolher e ajudar a chegar até quem pode tratar. Se o peso disso estiver grande demais, buscar apoio para você também é parte do cuidado — inclusive na terapia.
Quando é urgente
Procure ajuda imediata — sem esperar, sem “ver amanhã” — se a pessoa:
- fala em morrer ou em se machucar, com plano ou sem plano;
- se despede, doa objetos importantes, “acerta pendências” de forma incomum;
- está sob efeito de álcool ou outras substâncias e em desespero;
- já tentou se machucar antes e voltou a dar sinais.
Nesses casos: ligue 188 (CVV) ou 192 (SAMU), procure a UPA, o hospital ou o CAPS mais próximo, e não deixe a pessoa sozinha até ela estar em segurança.
Onde buscar ajuda
- CVV — 188 (ligação gratuita, 24 horas, todos os dias) e cvv.org.br (chat e e-mail).
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) da sua cidade — atendimento gratuito pelo SUS.
- UBS / posto de saúde — porta de entrada para encaminhamento.
- Psicólogo(a) e psiquiatra — para acompanhamento contínuo. A terapia trata a depressão, a ansiedade e os outros quadros que costumam estar por trás do sofrimento.
Se você é quem não está bem e chegou até aqui: pedir ajuda não é fraqueza, é o primeiro passo de volta. Atendo em Balneário Camboriú e online — me chame, e a gente começa pela conversa.
Perguntas frequentes
Perguntar sobre suicídio pode piorar a situação? Não. Perguntar de forma direta e acolhedora não “planta” a ideia; ao contrário, abre espaço para a pessoa falar e costuma trazer alívio. O que piora é o silêncio.
E se a pessoa não quiser ajuda? Você não pode obrigar, mas pode continuar presente, voltar ao assunto em outro momento e envolver outras pessoas de confiança. Se houver risco de vida, a prioridade é a segurança — e aí a ajuda deve ser buscada mesmo sem consentimento.
Como ajudar um adolescente que se fechou? Com paciência e sem invasão. Ofereça presença sem interrogatório, esteja disponível em momentos informais (no carro, na cozinha) e, se os sinais persistirem, procure um profissional. Adolescentes costumam aceitar melhor quando a ajuda não é apresentada como castigo.
Terapia funciona para quem está em sofrimento intenso? Sim. Junto com o acompanhamento médico quando necessário, a psicoterapia tem forte evidência no tratamento da depressão, da ansiedade e do sofrimento ligado a crises. O importante é começar.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de crise, ligue 188 (CVV, 24h). Ana Spinelli, Psicóloga — CRP 12/13565.